Como Goiás se prepara para liderar uma revolução em eficiência hídrica, gestão de resíduos e transição energética no campo
Em um contexto nacional marcado pela necessidade urgente de soluções sustentáveis para o setor agropecuário, um projeto goiano se destaca como referência científica e tecnológica. Trata-se da iniciativa “Transição Energética Rural por Meio da Biodigestão em Rota Seca: Bioenergia e Biofertilizantes com Economia Hídrica”, proposta que, em outubro de 2025, conquistou nota 8,9 e foi classificada em primeiro lugar na Chamada Pública FAPEG/SGG nº 25/2025, destinada ao fomento de soluções para a transição energética no meio rural.
A avaliação realizada pela FAPEG — reconhecida pelo rigor técnico, metodológico e científico — reforça a maturidade do projeto e seu alinhamento às demandas reais do campo goiano. Longe de representar qualquer forma de autopromoção, esse resultado sinaliza, sobretudo, que a rota seca vem ganhando legitimidade como alternativa de eficiência hídrica, segurança operacional e impacto ambiental positivo.
A iniciativa é fruto de um arranjo colaborativo emblemático, reunindo:
- SENAI-GO, instituição de ciência e tecnologia (ICT) especializada em automação e energias renováveis;
- Energycoop Cooperativa de Energias Renováveis, com forte atuação territorial e estratégica;
- CEASA-Goiânia, parceira essencial por oferecer espaço, suporte logístico e grande variedade de substratos reais;
- Produtores rurais e técnicos locais, formando um modelo de tripla hélice entre tecnologia, sociedade e setor produtivo.
O desafio dos resíduos e da energia no campo
O agro goiano vive sob dupla pressão: de um lado, a crescente geração de resíduos orgânicos; do outro, a dependência energética de fontes instáveis e caras. As agroindústrias familiares, responsáveis por boa parte da economia regional, sofrem com:
- manejo inadequado de resíduos agroindustriais;
- emissões difusas de metano;
- instabilidade da rede elétrica rural;
- altos custos com diesel;
- dependência de fertilizantes químicos importados;
- limitações hídricas crescentes.
A biodigestão anaeróbia sempre foi considerada uma solução estratégica, mas seu uso no Brasil esbarra, historicamente, na predominância da rota úmida, que requer pré-tratamentos, grandes volumes de água e não lida bem com resíduos heterogêneos — precisamente o perfil encontrado em hortifrutigranjeiros e unidades agroindustriais.
É nesse cenário que a rota seca termofílica ressurge como alternativa de alta eficiência, estabilidade operacional e menor dependência hídrica.
Rota seca: o estado da arte na biodigestão
Diferentemente da rota úmida, a rota seca opera com sólidos totais significativamente mais elevados (25–35%), o que traz benefícios diretos:
- drástica redução do consumo de água;
- eliminação de etapas de pré-tratamento;
- operação estável em regime termofílico (52–56 °C);
- menor risco sanitário;
- maior tolerância a resíduos complexos, fibrosos e contaminados;
- menor geração de efluentes.
Embora amplamente difundida em países como Alemanha e China, a biodigestão em rota seca ainda é pouco explorada no Brasil — não por falta de potencial, mas pela ausência de validações robustas em ambientes reais. O presente projeto busca preencher exatamente essa lacuna.
O piloto modular: contêineres inteligentes, automação e ciência aplicada
O coração do projeto é um sistema piloto modular instalado em contêineres adaptados, com automação industrial avançada e supervisão remota. A solução integra:
- sensores digitais para temperatura, pressão, pH, amônia, umidade, CH₄, CO₂ e H₂S;
- PLC/Edge Computing para controle embarcado;
- plataforma SCADA Web para monitoramento contínuo;
- operação em bateladas defasadas para maior estabilidade;
- módulos expansíveis, permitindo escalabilidade conforme a disponibilidade de biomassa.
As metas técnicas são claras e ambiciosas:
- 50 m³/dia de biogás;
- até 85% de metano;
- 235 kWh/dia de energia útil;
- redução de 30% no uso de diesel;
- economia superior a R$ 40 mil por propriedade/ano;
- redução estimada de ~120 tCO₂eq/ano;
- uso do digestato como biofertilizante, diminuindo custos agrícolas.
A importância científica da CEASA-Goiânia no projeto
Ao ceder espaço e garantir fornecimento contínuo de substratos reais, a CEASA-Goiânia cumpre papel decisivo para o caráter científico da pesquisa. Diferentemente de ensaios controlados em laboratório, os resíduos provenientes de um centro de abastecimento apresentam:
- heterogeneidade extrema;
- contaminação por materiais diversos;
- resíduos altamente fibrosos;
- presença de varreduras, folhas, palha e casca de coco, rejeitados em rotas úmidas;
- impurezas que simulam desafios reais do ambiente urbano.
Estudar a rota seca nesse ambiente confere validade científica superior ao piloto, pois o sistema é testado com resíduos que realmente existem, em condições complexas e pouco previsíveis.
Essa colaboração aproxima o conhecimento científico do cotidiano das cidades, integrando ambiente urbano e rural em uma lógica de bioeconomia circular.
A equipe: multidisciplinaridade como base de inovação
A estrutura executora combinou competências da indústria, da ciência e da engenharia aplicada. O documento oficial apresenta, como núcleo técnico do SENAI-GO:
- Gabriela Ferreira Matos — Coordenadora geral;
- Paulo Takao Okigami — Subcoordenador e especialista em automação;
- Haroldo Escudelario — integração de sensores e lógica supervisória;
- Antonio Cesar Baleeiro Alves — consultor técnico-científico e validação energética;
- Gabriel Mendonça de Paiva — integração elétrica e modelos preditivos;
- Igoor Morro Mello — gestão de inovação e TRL;
- Eber Vasconcelos Júnior — caracterização e aplicação agronômica do digestato;
- Dione Neves de Souza — eficiência energética e gestão de riscos;
- Erika Oliveira Palhares — ensaios e integração híbrida.
No eixo Energycoop:
- João Fernando Ferri da Silva, Engenheiro Ambiental e Sanitarista — responsável técnico do projeto pela cooperativa;
- João Oliveira, Engenheiro Agrônomo — articulador local em Goiânia;
- Emerson Soares, presidente da Energycoop e idealizador do projeto, responsável pela concepção inicial e pela articulação da solução com o campo.
Validação institucional
“Para Emerson Soares, presidente da Energycoop e idealizador do projeto, o processo que se inicia é de fundamental importância para democratizar o acesso ao biogás e transformar definitivamente a relação do produtor rural com energia, resíduos e produtividade.”
Rota seca x rota úmida: vantagens comparativas
| Critério | Rota Úmida Convencional | Rota Seca (Piloto) |
| Consumo de água | Alto | Muito baixo |
| Pré-tratamento de resíduos | Necessário | Dispensável |
| Aceita substratos fibrosos (palha, coco)? | Baixa eficiência | Alta eficiência |
| Estabilidade operacional | Sensível a variações | Alta (termofílica) |
| Opex | Elevado | Reduzido |
| Geração de efluentes | Alta | Quase nula |
| Escalabilidade | Limitada para pequenos produtores | Ideal para cooperativas e propriedades familiares |
A seguir, um panorama técnico com base no escopo do projeto:
Alinhamento às políticas públicas
O projeto reforça diretrizes estratégicas do estado e do país, incluindo:
- Lei Estadual nº 20.710/2020 — Política de Biogás e Biometano de Goiás;
- Programa Goiás Mais Energia Rural;
- ODS 6, 7, 11, 12 e 13 da ONU;
- transição energética justa e descentralizada;
- mitigação de gases de efeito estufa (GEE);
- economia circular urbana-rural.
O que significa ter sido classificado em primeiro lugar
A nota 8,9 recebida na avaliação da FAPEG representa mais que um reconhecimento; ela reforça a consistência científica da proposta, uma vez que os critérios de seleção incluem:
- mérito técnico-científico;
- metodologia;
- impacto social e ambiental;
- viabilidade operacional;
- capacidade executora da instituição proponente;
- inovação tecnológica;
- maturidade do TRL.
Em outras palavras, a pontuação alta demonstra que o projeto respeita padrões científicos rigorosos e está alinhado às demandas estratégicas de Goiás para energia, agricultura e gestão de resíduos.
Um novo capítulo para a bioenergia no Brasil
O piloto de biodigestão em rota seca não é apenas um equipamento ou um experimento — é um projeto de país, capaz de conectar produção agrícola, gestão de resíduos, economia urbana e geração distribuída.

A força do projeto reside na convergência entre:
- ciência aplicada (SENAI-GO),
- inteligência territorial e cooperativa (Energycoop),
- disponibilidade real de substratos urbanos (CEASA-Goiânia),
- rigor avaliativo (FAPEG),
- e capilaridade produtiva dos agricultores familiares.
Ao ser aprovado em primeiro lugar, o projeto Rota Seca entra no mapa das tecnologias estratégicas brasileiras para:
- mitigar emissões;
- reduzir custos agrícolas;
- aumentar a autonomia energética;
- modernizar o campo;
- fortalecer a bioeconomia;
- e aproximar cidade e campo em um ciclo virtuoso de sustentabilidade.
O caminho está aberto.
E o impacto, se replicado, pode transformar não apenas Goiás, mas toda a agroindústria brasileira.
Continuie lendo: O futuro do biogás no Brasil: inovação, sustentabilidade e novas oportunidades



